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Quem parou de delegar continua delegando.

O Instrumentista

Quem parou de delegar continua delegando.

Alguém pede ao assistente o resumo da reunião que acabou de terminar, embora tenha estado nela do começo ao fim. Alguém recebe de um estagiário a primeira versão de um relatório, apaga tudo e refaz em quatro minutos com a ferramenta, sem devolver comentário. Alguém abre o e-mail de um cliente às onze da noite e pede que a máquina responda “num tom firme, mas gentil”. Alguém passa a tarde corrigindo um texto que ficou pronto em segundos.

Em todas essas cenas, quem decide é o cansaço, e a decisão é sempre a mesma: passar adiante.

A paralaxe do caso

Um levantamento da Afferolab com a Tera, que ouviu 4,3 mil profissionais brasileiros, mediu um efeito curioso. Entre diretores e executivos de alto escalão, um em cada quatro deixou de delegar tarefas à equipe nos trinta dias anteriores à pesquisa, convencido de que, com IA, faria mais rápido sozinho. Lido de frente, o registro descreve ganho de produtividade. Lido de lado, descreve uma delegação que continuou acontecendo e apenas trocou de destinatário.

O trabalho que ia para uma pessoa, que errava, perguntava, voltava com dúvida e aprendia no caminho, agora vai para um algoritmo que responde sem dúvida alguma. A equipe deixa de receber o trabalho que a formaria. Quem delegava deixa de explicar, e explicar era o momento em que o próprio raciocínio se organizava. Enquanto isso, o tempo poupado na execução reaparece na revisão, em tardes inteiras gastas consertando o que veio rápido demais.

Aqui está o deslocamento: sair de “a ferramenta me liberou para pensar” e chegar em “a ferramenta ocupou o lugar onde o pensamento acontecia” é o ponto de vista a ser contemplado. O cansaço pediu um atalho, o atalho foi concedido, e a conta veio em forma de capacidade que deixou de ser exercida, na equipe que não aprendeu e em quem parou de elaborar.

A pressa que justificou a troca é a mesma que impede de perceber o que foi trocado.

Onde este exame não termina

Este exame para aqui. A mecânica completa está no Encarte Digital da Aferição Dav-A.I., disponível no Observatório de quem adquire a aferição. Ali estão os autores que descreveram o cansaço como regime de produtividade, o modelo que mede o desgaste da vontade a cada decisão tomada e o mapa da urgência que esgota o raciocínio antes que ele termine.

Dav-A.I. traz para o corpo o gesto de perceber o instante em que o cansaço escolhe por você. A delegação continua acontecendo; o que muda é a capacidade de examiná-la em ato.

Defina sua posição.